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28 June 2019

QUANDO SER LÍDER, ERA UM “PREGO NO SAPATO”.

Escrito por  Bilaco Publicado em Blog
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QUANDO SER LÍDER, ERA UM “PREGO NO SAPATO”.

“Nós, estudantes encantadenses e sócios da União dos Estudantes Secundários de Encantado, tomamos a resolução de subscrever nosso protesto e intenção, através desta lista abaixo assinada, com a finalidade de eliminar do quadro social o estudante Araray Tagoré Duro de Aquino, elemento desclassificado e sem moral, perturbador da ordem estudantil e  dos sublimes ideais de nossa classe, cujo passado e presente, tem sido um atentado ao bom nome da U.E.S.E.  e seus sócios. Elemento esse, que vem de outra cidade, com péssimo comportamento, querendo, aqui em Encantado, onde temos boas lideranças estudantis, dignos dessa representatividade, querer “tapar o sol com a peneira”, com seus atos escusos e palavras lisonjeiras, para esconder aquilo que foi, o que é, e o que nunca poderá ser. Tal elemento, para o cúmulo de tudo, anda armado, sedento de vingança contra estudantes, os quais, tem séria rivalidade. Com nossas assinaturas, vai o nosso protesto”.

                                 Encantado, 23 de setembro de 1.959.

O texto acima transcrito, pedindo a exclusão da sociedade estudantil e da  comunidade de Encantado, do considerado forasteiro e estudante Araray, só vem confirmar e a demonstrar o caráter dos mandatários na década dos anos sessenta, inclusive, influenciando na personalidade de alunos que se em nossos dias fosse, estariam frequentando o chamado Ensino Médio.

Felizmente, a ação dos pretendentes foi infrutífera. Não obtiveram as assinaturas suficientes para atingir sua finalidade. As injustiças sofridas pelo então jovem, líder estudantil e competente funcionário público, Araray Tagoré Duro de Aquino, foram imerecidas e impensadas, por vários “considerandos” que passaremos a enumerar:

1º Araray despertava inveja de muitos, pois era um jovem de boa aparência, vindo de Porto Alegre, para assumir um cargo no Posto de Saúde de Encantado, na função de Auxiliar de Inspeção Veterinária (Fiscal da carne), após a indicação do então Secretário da Saúde (Governo de Leonel de Moura Brizola) Lamaison Porto;

2º Araray, era mais adiantado do que muitos, já havia concluído o Ginásio, dando continuidade aos seus estudos no Curso de Contabilidade, matriculando-se no Colégio Madre Margarida;

3º De fácil comunicação e bom orador, ingressou no meio estudantil com conhecimentos políticos herdados na capital, surgindo como um novo líder por aqui;

4º Com bom relacionamento junto ao corpo docente, do único estabelecimento de ensino de segundo grau na cidade e com a Administração Pública (PTB), comandada pelo Dr. Francisco Borsatto Filho, Valdir Martins, Pedro José Lahude, Ernesto Lavratti (suplente de Deputado Estadual), Omar Ferri dentre outros...., a reação dos opositores do PTB, foi imediata.

Usando de influência de poder junto à comunidade católica e as lideranças estudantis (supostamente comandada pelos opositores do PTB), procurava excluir do meio estudantil e da sociedade, aquele novo líder, considerado uma ameaça para futuras conquistas dos então poderosos.

Araray era jovem, solteiro, proprietário de uma lambreta, passou a ser querido pelas jovens, admirado pelas famílias, estudantes e em especial, pela sociedade, passando a ser entrevistado na imprensa, rádio e jornal, participando da fundação do CTG Giuseppe Garibaldi, nas promoções festivas do Clube Recreativo Encantadense e nos esportes;

Foi um grande colaborador junto à União dos Estudantes Secundários de Encantado, em busca dos direitos estudantis e nas reivindicações para um Brasil melhor.

Por ser um dos aliados à liderança do Araray e ter sido eleito Presidente do Grêmio Estudantil Castro Alves, do então Ginásio Madre Margarida, também fui perseguido e até expulso do colégio das freiras. Na época, estávamos promovendo o 1º Congresso Regional dos Estudantes do Grau Médio, quando conseguimos reunir integrantes de 14 municípios da região, com absoluto sucesso de participação.

Àquela foi uma maneira de nos restringirmos à indignação moral. Foi uma exclusão ocasionada por debates de ideias sobre a desigualdade das oportunidades escolares e sociais.

As perseguições às lideranças de entidades estudantis e populares tornaram-se fatos comuns, corriqueiros, projetando, quase sempre, falsas acusações, inclusive à opinião pública que passava a acreditar que as lideranças surgidas, faziam parte da fantasiosa juventude comunista.

Este desabafo em defesa de uma causa e de um amigo, havia um dia de ser feito, mesmo depois de mais de cinquenta anos passados, pois graças a estas lembranças, pode haver quem afirme e confirme, que atitudes e exemplos como aqueles, justifiquem a falta e o surgimento de novas lideranças estudantis nos dias atuais e em consequência, para um Brasil melhor.

                                     Encantado, 25 de março de 2014.

BILACO

 

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